Falar do nascimento do Henrique é falar sobre a fé nos mistérios da vida. Em sua magia, no poder que as coisas tem quando tem que ser, no poder que nossos desejos e pensamentos tem quando jogados ao universo.
Falar do nascimento do Henrique é falar sobre assumir coisas. Tomar decisões, nadar contra a maré, tomar para si o que é seu e levar até o fim a ideia de que nem sempre o que a maioria das pessoas faz é a melhor opção para você e nem sempre o caminho trilhado pela maioria é o caminho revelador, poderoso e transformador da vida.
Henrique nasceu em casa, no seu quarto, no dia 18 de Abril de 2014, às 23h15. Um parto domiciliar planejado, respaldado por uma excelente enfermeira obstetra e apoiado por um renomado médico obstetra que conduziu meu pré-natal.
Parir em casa é assumir para si todos os riscos da vida, é agarrar com punho e alma a verdade de que o parto é um evento fisiológico e não patológico, é descobrir que, em uma gravidez de baixo risco como era a minha, ir para o hospital implica infinitamente mais riscos para mim e para o meu filho a tê-lo no aconchego do meu lar.É entender que a vida é feita de assumir que ela é frágil e intensa e que sempre haverá algo maior que nós a determinar sua fragilidade..
Henrique é meu segundo filho, a primeira, Manuela, nasceu em um parto natural hospitalar, sem analgesia, episiotomia, sem muita intervenção. Manuela saiu de mim e veio direto para o meu seio, onde ficou por duas horas, tendo o cordão cortado após parar de pulsar e não teve seus olhos violentados pelo colírio de nitrato de prata. Manuela foi meu primeiro parto de mim mesma e contra o sistema. Foi o primeiro sintoma da mulher que eu era e gostaria de ser. Manuela me revelou o quão poderosa eu era e o quanto todo o sistema do parto no meu país estava errado, como era apenas mais uma faceta de uma sociedade machista que subjuga as mulheres. Parir Manuela me revelou como fêmea, poderosa, leoa.
Então veio meu doce Henrique. Uma gravidez tumultuada, dois empregos, uma filha pequena amedrontada sobre o que seria ter um irmão, uma gripe violenta, um tombo, um carro descendo a ladeira e eu literalmente segurando com as mãos, um strepto positivo no final. Muita leitura, conversa, muita reação espantada de pessoas que diziam: vai parir seu filho em casa??? Coloca uma ambulância na porta.
Não as julgo, quando não temos informação o medo é nosso guia, vivemos em uma sociedade alarmista, que trabalha a partir da doença ao invés da saúde, temos um cenário onde o parto se tornou um evento do médico, cirúrgico, quase uma enfermidade, um perigo. Mas não é. E quando descobrimos que tudo isso é uma grande mentira nos deparamos com nós mesmas. Mulheres gigantes e poderosas.
No parto de Manuela me entreguei em um barco a deriva, não sabia onde ia chegar, mas me entreguei. As ondas me levaram e eu simplesmente me deixei levar confiante. Quando foi a vez de Henrique eu tomei o remo, as rédeas e trabalhei junto com meu corpo. Às 18h30 do dia 18 foi quando as contrações ficaram regulares, Manuela foi para cama com o pai. A essa hora, se anjos existem estavam todos aqui em casa. Neste dia minha filha não me pediu para dormir com ela, foi só com o pai e eu fiquei só. As contrações eram muito fortes, o que me fizeram crer que seria muito rápido. A cada contração eu focava minha mente para dentro de mim e impulsionava com meu pensamento e respiração meu útero para que se abrisse. Às 21h minha doula chegou. Às 21h50 as enfermeiras. Fiquei a maior parte do tempo em meu quarto. Eu, Henrique e meu corpo trabalhando juntos. Eu sabia exatamente em que estágio do trabalho de parto estava. Disse ao meu marido, "ele vai nascer daqui a pouco", para espanto do Leo que estava esperando as 12 horas do trabalho de parto da Manu. Mas eu sabia, sabia de tudo, e trabalhava com tranquilidade para que acontecesse.
A banheira foi cheia no quarto de Henrique e eu fui para lá. Surpreendida por uma luz azul, que minha doula colocou no quarto, fui arrebata pela água morna. À minha frente, sentada e sorrindo a enfermeira Odete. No teto as fadas do quarto do meu filho, nas paredes as nuvens que fiz. Então eu disse: Filho seu quarto está lindo! Disse isso com toda minha alma. Então veio a contração final. Me virei de quatro e Henrique nasceu. Sem que ninguém o tirasse de mim. Ao som da minha respiração e sob a força do meu corpo ele lentamente saiu de dentro de mim e foi amparado, na água, por Odete, que me entregou imediatamente meu lindo filho. Duas circulares de cordão, 3k765, 53 cm. Olhos puxados, amendoados. Eu o pari. E na mesma hora, em outra cidade, onde estava sua bisavó uma linda borboleta invadiu a sala.
Nasceu Henrique.
Manuela dormia, assim como eu e ela desejávamos. E ao acordar pela manhã encontrou seu irmão na cama, trazido pelos anjos. Para ela ele atravessou sim um portal dourado e desceu pelo arco-íris.
Pouco depois de parir Henrique eu pari a placenta, a toquei, agradeci, tomei um ponto em uma laceração que não senti, tomei sopa trazida por minha mãe e dormimos todos aqui. Eu, Leo, Manuela e Henrique, família e parte um dos outros que somos.
Não acredite que você não é capaz. Sempre somos. Nossa vida está em nossas mãos. E aí então os anjos sempre dizem: amém.
15 maio, 2014
21 janeiro, 2014
Napoleão se foi. Mas fica em nós.
Vô querido. "Napo com Leão". De você ficam muitas coisas. Suas sandálias de couro, as visitas ao mercado Central de BH, as ruas de Petrópolis e o momento de nos reunirmos ao fim de um encontro para um retrato. Sempre vou me lembrar de você com sua barba enorme, sua distração maluca e do som de uma gaita que ecoava por um extenso salão de um antigo casino em Petrópolis.
Lembrarei-me de sua fissura por doces, de seus gorros e adereços trazidos das viagens pelo mundo, da sua cabeça aberta e o papo tranquilo para falar das bagunças da vida, de drogas e de ideais comunistas. Da sua bolsa de lado, dos seus relógios antigos, a coleção de filmes raros, os retratos de Che e Fidel e do cuco que saía para fora da casinha e tanto me encantava quando criança.
O senhor não foi um avô comum, foi um avô a frente de tudo. Não ia à missa aos domingos, mas escrevia livros sobre política, carregava ideais de uma revolução. Foi à Cuba e ao mundo todo, desaparecia e depois ressurgia cheio de saudades. Se parecia com meu pai, com meu irmão, gostava de piadas e assobiava baixinho ao fazer palavras cruzadas.
Você não foi um avô comum. E foi meu último avô a deixar esse plano. Como lhe disse no hospital, repito aqui:
Obrigada.
Por fazer parte de algo que sou, do que meus filhos serão. Por me fazer pensar além do ordinário, gostar também de filmes raros e de um bom retrato. Fará falta, claro. Mas que seja azul e lindo onde estás, repleto de amor, memórias, fotografias e uma bela gaita dourada.
Descanse Vô, nós continuamos pelo senhor.
Lembrarei-me de sua fissura por doces, de seus gorros e adereços trazidos das viagens pelo mundo, da sua cabeça aberta e o papo tranquilo para falar das bagunças da vida, de drogas e de ideais comunistas. Da sua bolsa de lado, dos seus relógios antigos, a coleção de filmes raros, os retratos de Che e Fidel e do cuco que saía para fora da casinha e tanto me encantava quando criança.
O senhor não foi um avô comum, foi um avô a frente de tudo. Não ia à missa aos domingos, mas escrevia livros sobre política, carregava ideais de uma revolução. Foi à Cuba e ao mundo todo, desaparecia e depois ressurgia cheio de saudades. Se parecia com meu pai, com meu irmão, gostava de piadas e assobiava baixinho ao fazer palavras cruzadas.
Você não foi um avô comum. E foi meu último avô a deixar esse plano. Como lhe disse no hospital, repito aqui:
Obrigada.
Por fazer parte de algo que sou, do que meus filhos serão. Por me fazer pensar além do ordinário, gostar também de filmes raros e de um bom retrato. Fará falta, claro. Mas que seja azul e lindo onde estás, repleto de amor, memórias, fotografias e uma bela gaita dourada.
Descanse Vô, nós continuamos pelo senhor.
21 julho, 2013
Um desmame de luz. O desmame em que nada fiz. O desmame que foi simplesmente o desmame.
Como caminhamos até aqui. O primeiro contato de Manuela com o mundo foi com a boca ao meu seio. Saiu de dentro de mim e veio diretamente para os meus braços, nos deitamos e, com o cordão ainda pulsando, lambeu, cheirou e pegou meu seio. Intercalava seu choro de recém- nascida com abocanhadas ao meu seio, até que o choro mesmo acabou e só restou o peito, por mais de uma hora.
E esse primeiro contato com o mundo se tornou rapidamente seu maior referencial na relação comigo e com os outros e com a vida. Era no meu seio que os tombos e os sustos se curavam. Era no meu seio que o sono chegava, e do sono acordava. Foi batizada no meu seio, cochilando, não a quis acordar tão pouco tirá-la do seu mamá. Fez de chupeta como diriam alguns, fez de alimento, fez de conexão com o desconhecido.
Sempre com a pega perfeita não permitiu que eu tivesse as questões que atormentam algumas mães, como rachaduras no bico do seio. Mas tivemos sim pedras no caminho. Sempre magrinha ganhou quase nada de peso a partir do terceiro mês, aí tinham aqueles que sempre questionam: não seria seu leite? Mas meu coração nunca me enganou e aquele nenem magrelo, mamão, sorridente e acordado não poderia estar passando fome, nem estar doente. Tive a sorte de uma pediatra contra fórmulas, suplementos e vitaminas caso o bebê esteja clinicamente bem, então seguimos até seis meses com aleitamento exclusivo. Eu, ela e nosso seio. Até comercial fizemos, em que ela, linda, me olha profundamente e abocanha seu alimento e seu referencial de vida, amor e mundo.
Ouve-se muita coisa quando se é mãe. Imagina eu? Com uma menina tão esperta, tagarela e cheia de energia, que, aos dois anos, puxava minha blusa e agarrava meu seio sem pudores. Eu nunca tive nem disse a ela que deveríamos ter pudor com isso. Seguimos nosso caminho. Doenças? Duas viroses, dessas um resfriado forte quando entrou na escola e uma inócua, eruptiva. Febres? Duas. Amor? Muito.
Dias de sofrimento e cansaço? Vários. Muitas vezes queria que alguém viesse sim substituir meu seio. Quantas noites depois de mamar todo o leite não começou a enrolar ali, sem dormir e eu exausta gritei de desespero. Mas nunca foi o suficiente para tirar-lhe. Meu coração dizia que eu não devia. E eu tinha sim, muitos momentos de prazer quando Manuela se aninhava e aquele pouco de leite que restava descia. E ela enorme com os pés para fora do meu colo mamava com prazer e silêncio. Era uma reconexão nossa com o mistério que nos fez mãe e filha.
Até o dia 14 de Julho de 2013. Quando minha filha, aos dois anos e dez meses, espontaneamente me disse que havia crescido. E que aquele seria o último dia do mamá. Disse que quando isso acontece há fogos e sacudiu suas mãos no ar. Deu tchau, verbalmente: tchau, mamá. E mamou. Largou. Voltou. Repetiu: mamãe é a última vez então vou mamar mais um pouco. Ao que lhe disse: filha se é a última vez você deve mamar muito.
E então começou a se dividir entre o hábito, entre o fato de ser essa, até então, sua referência mais forte e única na relação comigo e o fato de que ela havia sim entendido que crescera. E não fui eu quem lhe contou. Seu eu tivesse lhe contado ela não saberia, mas foi ela quem soube e me contou.
O hábito foi diluindo, diluindo. Eu disse: filha, agora nós vamos entender a nova forma. E estamos entendendo. Acaba de dormir seu cochilo da tarde. Se deitou, eu deitei junto, lhe fiz cosquinhas com a ponta dos dedos, cantarolei uma linda música e ela dormiu. Foi assim noite passada também. O mundo cresceu para ela. E o que é melhor, cresceu junto com ela.
Te amo Manuela, meu seio está guardado mas minha alma lhe pertence para sempre filha. Obrigada. E obrigada coração meu por me sussurrar tantas certezas bonitas.
Nosso comercial, seu olhar sempre foi o mesmo:
http://youtu.be/EF9pOch3lNg
E esse primeiro contato com o mundo se tornou rapidamente seu maior referencial na relação comigo e com os outros e com a vida. Era no meu seio que os tombos e os sustos se curavam. Era no meu seio que o sono chegava, e do sono acordava. Foi batizada no meu seio, cochilando, não a quis acordar tão pouco tirá-la do seu mamá. Fez de chupeta como diriam alguns, fez de alimento, fez de conexão com o desconhecido.
Sempre com a pega perfeita não permitiu que eu tivesse as questões que atormentam algumas mães, como rachaduras no bico do seio. Mas tivemos sim pedras no caminho. Sempre magrinha ganhou quase nada de peso a partir do terceiro mês, aí tinham aqueles que sempre questionam: não seria seu leite? Mas meu coração nunca me enganou e aquele nenem magrelo, mamão, sorridente e acordado não poderia estar passando fome, nem estar doente. Tive a sorte de uma pediatra contra fórmulas, suplementos e vitaminas caso o bebê esteja clinicamente bem, então seguimos até seis meses com aleitamento exclusivo. Eu, ela e nosso seio. Até comercial fizemos, em que ela, linda, me olha profundamente e abocanha seu alimento e seu referencial de vida, amor e mundo.
Ouve-se muita coisa quando se é mãe. Imagina eu? Com uma menina tão esperta, tagarela e cheia de energia, que, aos dois anos, puxava minha blusa e agarrava meu seio sem pudores. Eu nunca tive nem disse a ela que deveríamos ter pudor com isso. Seguimos nosso caminho. Doenças? Duas viroses, dessas um resfriado forte quando entrou na escola e uma inócua, eruptiva. Febres? Duas. Amor? Muito.
Dias de sofrimento e cansaço? Vários. Muitas vezes queria que alguém viesse sim substituir meu seio. Quantas noites depois de mamar todo o leite não começou a enrolar ali, sem dormir e eu exausta gritei de desespero. Mas nunca foi o suficiente para tirar-lhe. Meu coração dizia que eu não devia. E eu tinha sim, muitos momentos de prazer quando Manuela se aninhava e aquele pouco de leite que restava descia. E ela enorme com os pés para fora do meu colo mamava com prazer e silêncio. Era uma reconexão nossa com o mistério que nos fez mãe e filha.
Até o dia 14 de Julho de 2013. Quando minha filha, aos dois anos e dez meses, espontaneamente me disse que havia crescido. E que aquele seria o último dia do mamá. Disse que quando isso acontece há fogos e sacudiu suas mãos no ar. Deu tchau, verbalmente: tchau, mamá. E mamou. Largou. Voltou. Repetiu: mamãe é a última vez então vou mamar mais um pouco. Ao que lhe disse: filha se é a última vez você deve mamar muito.
E então começou a se dividir entre o hábito, entre o fato de ser essa, até então, sua referência mais forte e única na relação comigo e o fato de que ela havia sim entendido que crescera. E não fui eu quem lhe contou. Seu eu tivesse lhe contado ela não saberia, mas foi ela quem soube e me contou.
O hábito foi diluindo, diluindo. Eu disse: filha, agora nós vamos entender a nova forma. E estamos entendendo. Acaba de dormir seu cochilo da tarde. Se deitou, eu deitei junto, lhe fiz cosquinhas com a ponta dos dedos, cantarolei uma linda música e ela dormiu. Foi assim noite passada também. O mundo cresceu para ela. E o que é melhor, cresceu junto com ela.
Te amo Manuela, meu seio está guardado mas minha alma lhe pertence para sempre filha. Obrigada. E obrigada coração meu por me sussurrar tantas certezas bonitas.
Nosso comercial, seu olhar sempre foi o mesmo:
http://youtu.be/EF9pOch3lNg
19 maio, 2013
O pequeno botão de rosa
Era uma vez uma rosa
amarela. Ela brotou num dia de sol sob a força da natureza e se
mostrou vigorosa, esplendorosa. Ainda era botão, levemente fechado,
que, ao soprar da brisa, se abria em pequenos pedaços e lentamente
se fechava novamente, agasalhando-se em sono leve.
Sob a luz do sol se
alimentava,se nutria e crescia.
Até que ao fim do
décimo dia, o botão sentiu uma rajada de vento mais forte que
habitual. Estremeceu-se em seus pequenos e frágeis espinhos e voo
levemente, desprendendo-se da mãe roseira e caindo nas águas do
rio.
A roseira se balançou
com o movimento da filha que voava, e, ao som do vento forte e agudo
que soprava, esticou seus galhos na direção do rio, que, ao soprar
do vento rapidamente se agitou e carregou a pequena rosa amarela.
O vento soprava e o
pequeno botão de rosa descia, e a roseira...a roseira chorava. E por
ser roseira não era choro de gente, era choro de flor despedaçada.
Ritimava com o sibiliar do vento o chacoalhar de suas folhas, galhos,
e outras pequenas rosas que carregava em si.
A pequena rosa amarela
absorveu-se pela água, encharcou-se do rio e desceu até sua
margem.Boiou até o canto e em um pequeno pedaço de terra aterrou,
ensopada, nem tão amarela, mas ainda botão.
Foi quando a roseira
que gritava pelo chacoalhar de suas folhas silenciou-se.
Esperou o sol.
Rendeu-se à brisa e
ao tempo.
E aos poucos algumas de
suas folhas foram caindo no rio, descendo suas águas até chegarem à mesma margem em que descansava o tão pequeno botão de rosa amarela.
Os pedaços da mãe
roseira boiaram por cima do pequeno botão, cobrindo-lhe de amor. E
lhe secaram a água. Depois integraram-se a terra. Que se abriu em
grande buraco. Foi então que a ponta do botão ao chão mergulhou.
E se alimentando da
terra brotou novamente. Se abriu e cresceu. Frondosa e aberta para o
sol.
06 fevereiro, 2013
Uma breve história sobre o nascimento de Aurora
Aurora tinha sentido de luz. Tocava nas manhãs. Chegou com calma, recebeu colo de quem, chamada de Helena, se apresentava irmã.
Aurora era sim a luz da manhã, uma luz rara e única, como são os seres recém chegados. Então um fio de luz e um fio de vida rapidamente se revelou. Uma infecção. Um susto. Um temor.
O sussurro e a explicação do que acontecia para Aurora se cantou. Seus dedos pequenos esticados e duvidosos foram amparados com amor.
A mãe que de ser mãe já se sabia, chorou choro de dor. Dor. Choro nunca antes ouvido, ruído que não se sabia, pavor que não se somava a letra, que não tinha sentido.
Aurora em silêncio também chorou, mas em paz devia estar. Ela acabara de chegar, ainda conversava com anjos que boiavam no teto, escondidos por detrás de lampadas hospitalares. Seu corpo chorava, mas sua alma sem dúvida era cuidada e em um silêncio misterioso boas palavras com esses anjinhos trocava.
Uma vez duvidaram da mãe, essa ciência que tanto duvida do que é de gente e de homem. E a mãe em silêncio dizia para si: dentro de mim carrego muitas respostas. Ela, que já descobrira e entendera o choro desconhecido, soube então ser leoa e sabiá, rugir e ao mesmo tempo cantar. E suavemente fingindo não saber que seu coração sabia mais que a ciência da Terra, propôs seu peito como alento.
Com boca devoradora de quem busca sua parte, a parte de si, Aurora mamou. O leite descia e as fartava, a ambas. Os médicos tiveram então que descansar os livros. Apenas ouvir com os olhos.
Então Aurora foi curada. E os tons azuis e rosados, amarelos profundos e belos de um renascer reluziram na palavra ALTA.
Aurora então nasceu.
Aurora era sim a luz da manhã, uma luz rara e única, como são os seres recém chegados. Então um fio de luz e um fio de vida rapidamente se revelou. Uma infecção. Um susto. Um temor.
O sussurro e a explicação do que acontecia para Aurora se cantou. Seus dedos pequenos esticados e duvidosos foram amparados com amor.
A mãe que de ser mãe já se sabia, chorou choro de dor. Dor. Choro nunca antes ouvido, ruído que não se sabia, pavor que não se somava a letra, que não tinha sentido.
Aurora em silêncio também chorou, mas em paz devia estar. Ela acabara de chegar, ainda conversava com anjos que boiavam no teto, escondidos por detrás de lampadas hospitalares. Seu corpo chorava, mas sua alma sem dúvida era cuidada e em um silêncio misterioso boas palavras com esses anjinhos trocava.
Uma vez duvidaram da mãe, essa ciência que tanto duvida do que é de gente e de homem. E a mãe em silêncio dizia para si: dentro de mim carrego muitas respostas. Ela, que já descobrira e entendera o choro desconhecido, soube então ser leoa e sabiá, rugir e ao mesmo tempo cantar. E suavemente fingindo não saber que seu coração sabia mais que a ciência da Terra, propôs seu peito como alento.
Com boca devoradora de quem busca sua parte, a parte de si, Aurora mamou. O leite descia e as fartava, a ambas. Os médicos tiveram então que descansar os livros. Apenas ouvir com os olhos.
Então Aurora foi curada. E os tons azuis e rosados, amarelos profundos e belos de um renascer reluziram na palavra ALTA.
Aurora então nasceu.
09 janeiro, 2013
Carta para o Professor
Eu bem sei que aí não tem computadores, internet. Como sei que mesmo quando tudo era terreno para você não lhe era costumeiro checar emails e frequentar blogs. Mas minha alma hoje borbulhou dentro de mim e eu precisava lhe escrever. Escrevo para mim mesma, para os que me leem, mas o desabafo conforta e a doce ilusão de que com o senhor converso agora acalma a saudade, abranda as lágrimas.
Eu e Paula conversávamos. Ela fará Pedagogia, na Uni Rio, segue grávida de Francisco. O Chiquinho que você chamava na minha barriga veio na dela. Eu estou cercada de livros. Esse ano começo a lecionar português a crianças de onze anos.
Sim. Duas de nós. Educadoras. Eu me sinto tão entusiasmada que, ao ler os livros, ao deparar me com pensamentos e orientações para a formação de leitores, escritores, cidadãos críticos, pessoas de opinião, transformadores sociais, preciso pausar a leitura para conter o entusiasmo. Entusiasmo desse fazer tão belo, artesanal e profundo. E disse a Paula que queria poder lhe contar e dividir com você minha alegria, expectativa e desafio. E ela disse que você sabia. E que era vivo em nós.
Lembrei me então do dia em que me contou que o dia mais feliz da sua vida foi quando entrou na sua escola, escola que você fundou com suor e amor. E que ao olhar para o pátio sentiu uma alegria tranquila, dessas que se dão pela certeza de estar no lugar certo.
Das suas conversas com Manuel Bandeira, da sua amizade com Manoel de Barros e Helio Oiticica. Da alfabetização para adultos humildes que você realizou até os mais de noventa anos de idade. Do dia que, sentado à cadeira de sua casa, me confessou: ensinar a ler e escrever é só o começo, o que faço nessas aulas é dar noções de cidadania a esses trabalhadores, que tem as mãos calejadas, porque quando crianças ganharam uma enxada ao invés de lápis e caderno.
O que seria então ser um professor? O senhor tinha a alma de um. E deixou "farelinhos" dessa estrela, que a vida se encarrega aos poucos de mostrar. Nunca imaginei que seria professora de português e no entanto me vejo como o senhor, orientadora e parceira de seres humanos.
A Paula disse que você é vivo. Em mim. Nela. Na Manuela. Que basta olhar, e dá até para tocar.
Disse que agora vai abrir com ela uma escola. Posso ver os passos dela pisando no pátio, segurando Francisco pela mão, olhando ao redor e sentindo o seu cheiro, para que ali prossiga seu legado.
E eu morro de saudades. De sua voz rouca a me dizer; então vá ler Julietinha porque ensinar Português é coisa séria.
E eu morro de gratidão. Gratidão eterna, por ser sua neta vô.
Eu e Paula conversávamos. Ela fará Pedagogia, na Uni Rio, segue grávida de Francisco. O Chiquinho que você chamava na minha barriga veio na dela. Eu estou cercada de livros. Esse ano começo a lecionar português a crianças de onze anos.
Sim. Duas de nós. Educadoras. Eu me sinto tão entusiasmada que, ao ler os livros, ao deparar me com pensamentos e orientações para a formação de leitores, escritores, cidadãos críticos, pessoas de opinião, transformadores sociais, preciso pausar a leitura para conter o entusiasmo. Entusiasmo desse fazer tão belo, artesanal e profundo. E disse a Paula que queria poder lhe contar e dividir com você minha alegria, expectativa e desafio. E ela disse que você sabia. E que era vivo em nós.
Lembrei me então do dia em que me contou que o dia mais feliz da sua vida foi quando entrou na sua escola, escola que você fundou com suor e amor. E que ao olhar para o pátio sentiu uma alegria tranquila, dessas que se dão pela certeza de estar no lugar certo.
Das suas conversas com Manuel Bandeira, da sua amizade com Manoel de Barros e Helio Oiticica. Da alfabetização para adultos humildes que você realizou até os mais de noventa anos de idade. Do dia que, sentado à cadeira de sua casa, me confessou: ensinar a ler e escrever é só o começo, o que faço nessas aulas é dar noções de cidadania a esses trabalhadores, que tem as mãos calejadas, porque quando crianças ganharam uma enxada ao invés de lápis e caderno.
O que seria então ser um professor? O senhor tinha a alma de um. E deixou "farelinhos" dessa estrela, que a vida se encarrega aos poucos de mostrar. Nunca imaginei que seria professora de português e no entanto me vejo como o senhor, orientadora e parceira de seres humanos.
A Paula disse que você é vivo. Em mim. Nela. Na Manuela. Que basta olhar, e dá até para tocar.
Disse que agora vai abrir com ela uma escola. Posso ver os passos dela pisando no pátio, segurando Francisco pela mão, olhando ao redor e sentindo o seu cheiro, para que ali prossiga seu legado.
E eu morro de saudades. De sua voz rouca a me dizer; então vá ler Julietinha porque ensinar Português é coisa séria.
E eu morro de gratidão. Gratidão eterna, por ser sua neta vô.
04 dezembro, 2012
Lado de cá
O som era da vassoura. Ela varria e me dizia. Eu também desabafava. Meus olhos se enchiam, com a voz engasgada, com minha filha nos braços, lhe contava: ela levou um tiro no peito, dentro da própria casa. De graça. E a vassoura mudava a cadência ao ouvir me. Suas mãos calejadas então paravam. Seus olhos brilhantes e negros se espantavam e sua forte voz replicava com doçura: O reconheci pela televisão, quando preparava o almoço larguei meus afazeres, e fui ver se de fato era ele. O conheci pequeno. Era descalço. Drogado. Sentava-se abandonado por cima dos carros segurando uma arma. Eu ia para a igreja e dizia; olha só aquele menino ali, que fim terá?
E então secou as lágrimas. A vassoura voltou a varrer. Eu fui ninar minha filha. Nenhum perdão ocorreu. Só dor dos dois lados.
E então secou as lágrimas. A vassoura voltou a varrer. Eu fui ninar minha filha. Nenhum perdão ocorreu. Só dor dos dois lados.
02 outubro, 2012
Que sei eu
Nomes. Um dia
recortamos tudo. Demos nomes. Inventamos palavras. Reduzimos o
sentido ao som da junção de letras. E então fazemos assim com tudo
na vida. Profissão. Paixão. Realização. Nome. Nome. Nome. Damos
tanto nomes para o que há fora de nós que o que não se chama
também não se ouve.
Hoje quando me
perguntam minha profissão tenho que pensar muito. Sou professora de
teatro. Me formei em jornalismo. Escrevo sempre que dá, um coisa
aqui e outra acolá, pouca ficção, muita reflexão, desabafo, as
vezes poesia. Arranco algumas lágrimas dos leitores com palavras
doces e sentidas, sei colocar no papel um bucado de coisa e sou uma
contradição porque as vezes não acredito nas palavras mas me
delicio com elas. Como não acreditar? Manoel de Barros é meu santo
salvador e me salva por palavras. Deve ser porque ele não reduz
sentimentos pelo som de letras. Ele os amplia, os mastiga, os colore.
Então a palavra deixa de ser um recorte e vira arte. E se vira arte
é extensão da vida, é transfiguração; mas me falta ousadia de me
dar o nome de escritora. Sou mãe. Muito mãe. De amamentar até os
dois anos, de mudar de cidade para dar uma casa mais confortável. De
não cogitar, e preste bem atenção ao som dessa palavra COGITAR
sacrificar nossa relação por coisas que, para mim, são menores. E
olha que para ser menor que meu amor por ela não precisa lá ser
algo tão pequeno. Sou dona de casa. Decoradora. Ultimamente me
descobri habilidosa com as mãos. Faço borboletas de papel para
varanda, prego com cola flores secas na parede e perco o sono
elaborando presentes doces criativos para pessoas que amo. Sou
cozinheira. Pesquiso sabores diferentes, compro orgânicos,
integrais, não industrializados, não como carne, faço eu mesma o
leite de coco. Que nome seria isso? Seria isso também uma profissão?
Fiz 5 anos de escola de teatro, três no Brasil, dois em Londres. Me
transformei. Saí da Inglaterra ouvindo: você precisa ser vista. Dei
com a testa na porta, chorei. Só.Falei uma frase em um
longa, uma peça pequena em Londres. Muito treino. Muito ensaio. Só.
Seria atriz?
Que nome que a gente
tem? E só de escrever quantos nomes carrego tirei o peso de me
definir. Não tenho nome. Manuela me chama de mamãe juju, meu marido
de amor, minha mãe de Julieta. Eu me chamo de não sei.
30 julho, 2012
Para Henry
Os pés pisam no chão ainda frio. Eles desconhecem esse novo caminho. Com sua partida ficou a saudade do velho. Saudade do que era minha alma. Minha alma agora, mais uma vez, é outra. Não é mais aquela que existia à manhã de quarta feira. Voltar para minha vida antiga, a Belo Horizonte, não significa mais voltar ao que era. Ainda que eu cozinhe com os mesmos temperos, debaixo do mesmo teto, carregue Manuela para o mesmo parque pelo mesmo caminho. Converse ao telefone com minha mãe nos mesmos horários de sempre. Jamais será a vida anterior a quarta. O que nos faz é a vida e quem por ela cruza. Eu não me fiz católica. E conversávamos muito sobre Cristo. Eu lhe dizia que me doía aquela imagem de Cristo em pedaços de sangue, em sofrimento em uma cruz, mas o senhor dizia-me que aquilo representava renascimento. Renascimento. Tudo na vida é o modo que se vê. E que se sente. Quantas vezes imaginei o dia em que partiria. 97 anos ora pois, pensei nisso muitas vezes. A gente tem essa mania estranha de pensar em algo que ainda não existe. Eu sabia que você partiria na quarta, mas não disse a ninguém e quando quis dizer a mim, neguei solenemente. Suas cores vibram nas paredes da minha casa, sua última assinatura do seu último quadro, feito em parceria, ganhou beijo doce e espontâneo de sua bisneta. Eu beijei sua cama. Não pude colocar a mão em sua fronte fria como o fez seu guerreiro e amado filho Paulo. Mas eu lhe olhei. Olhei profundamente. E por ora via aquelas flores se mexerem como se respirasse aquele corpo que tanto viveu. Certa vez escrevi sobre uma cidade redonda onde sempre voltamos a onde começamos. Concordo. Mas os pés pisam diferente. E a alma carrega mais saudades. Novos sonhos. Por você carrego gratidão. Lembro me de quando cumpri o sonho de morar perto de ti, e até mingau lhe fiz. Era uma forma de eu lhe dizer muito obrigada. Obrigada por me ensinar que na cruz cheia de sangue há renascimento, que em um desaforo sincero reside um amor profundo e um desejo intenso de que o mundo seja um lugar melhor. De que viver 97 anos e querer partir e partir porque quer é privilégio de almas solenes. Antes mesmo de sua partida me lembrava todas as noites de sua voz rouca a contar me histórias pra dormir, quando faço o mesmo para minha filha. Não as mesmas. Mas histórias. E regadas de amor. E essa noite em um sono meio acordada falava comigo mesma a despedida e me despedia de cada parte do seu corpo. Sonambula dizia adeus aos seus pés, à suas mãos, dizia adeus a cada parte de ti, e acordei bem. Minha alma não é mais a mesma e como eu poderia lhe pedir: não não vá! Não havia como isso lhe pedir, que pra viver precisa se morrer. E junto ás estrelas se juntar. E não sei dizer o que se torna quando se vai. Mas o que fica de ti...esse fica comigo até eu partir.
03 julho, 2012
Efêmero
Você tirou suas fraldas. Assim, com um ano e 9 meses as arrancou e decretou seu fim. Para isso não fiz nenhum processo nem treinamento, nem tão pouco esperava. Me disseram que seria a partir dos dois. E como todas as belezas da vida acontecem sem data previamente marcada você decidiu que não as queria agora. Usa calcinhas, pouco as molha, já sabe fazer a forcinha pro xixi sair, ainda não pede, mas tudo indica que em breve, muito em breve, o verbo e o desejo saltarão a boca. E foi doce e sútil. O peito ainda não solta. Agarra, coloca a boca e se distrai por ali. Eu fico exausta. Reclamo. Essa noite por duas horas seguidas sugou deitada por cima da minha barriga. Já elabora frases enormes, raciocínios incríveis, entendimentos completos e as vezes, porque não dizer, precoces. Precoces para regras gerais, mas não pra você. Você que esperou 41 semanas, dois dias e 12 horas de trabalho de parto pra nascer. Não para você que é respeitada no seu tempo. E tanto me ensina. A morte sempre ronda a vida. E nos passa de raspão. Uma mulher um dia se jogou bem perto de mim. Semana seguinte passamos 20 minutos antes em um local que foi palco de uma tragédia de trânsito. Hoje soubemos que o filho da sua médica tirou a própria vida. E você a viver a sua no seu tempo. E eu, entre olheiras e cansaço, vejo uma menina que quer muito meu seio, que dormiu a noite toda agarrada a mim. Então respiro. Te vejo enorme, perfeita e saudável. Deitada na minha cama com calcinha de algodão branco a choramingar meu peito. E lhe dou. E nos agarramos. E eu lhe toco. Sua pele branca, macia. Seus cabelos claros, seus cílios longos, sua boca perfeita e rosada. E agradeço a sua existência. E celebro o encontro das nossas almas que um dia decidiram se fazer carne para viverem juntas por essa passagem pela Terra. E eternizo esse momento. Porque a vida tem me revelado, ao acaso, a morte. E você me revela a vida. Me revela a mim. E me mostra o tempo. E sei que do mesmo modo que arrancou as fraldas um dia vai dizer adeus ao meu seio. Vai abrir a porta de casa e ganhar o mundo. Eu vou envelhecer. Você também. E essa tarde de hoje, você agarrada ao seio aos quase dois anos de idade, esse momento estará somente gravado na alma. Você meu amor não faz nada que não seja ao seu tempo. E eu não quero correr. Mame. Mame muito, o quanto for do seu desejo. Não tenho dúvidas de que seguir o tempo e respeitá-lo é o melhor caminho para se viver. Seu corpo é parte do meu corpo. E você é mais linda revelação da vida, da unicidade e do passageiro. Eterno é somente meu amor desmedido por você.
23 fevereiro, 2012
Todo dia
Amanhece. Saudamos o sol e entre tropeços espremo as laranjas, coloco-lhe chapéu, calça e camiseta. No carrinho vamos quicando pelas calçadas emburacadas, desviando dos degraus, ouvindo bem-te-vis ao longe. Você pequenina segura com as duas mãos no carrinho e procura no chão cocô de cachorro, pegada de passarinho, água que desce pela rua. E para tudo quer mais. Chegamos ao parque e saudamos borboletas que, também vem nos saudar, voam perto do nosso rosto, e você pisca alegre, gargalha. Dizemos oi para as flores, você as quer cheirar, se coloca bem perto delas, e com uma caretinha deliciosa funga seu cheiro por muito tempo, o quanto eu ali lhe deixar. As acaricia. As respeita. Então lhe conto que uma abelha virá buscar o pozinho para fazer mel, aquele mesmo que as frutinhas não muito maduras para você irá adoçar. Então descemos para areia e suas mãos se abrem inteiras na umidez profunda das pedras e terra fina, junta montinhos, espalha outros tantos e pede que lhe tire os sapatos, esparrama seus pés, pronuncia o nome das coisas, pé, chão, bom. Vê uma formiga e se joga de cara no chão com milhões de beijinhos estalados e carinhosos. Aprendemos juntas a saudar o dia e celebrar com amor todas as coisas. Na volta passarinho voa pertinho, cachorro vem cheirar. Em casa o banho lava a terra, refresca a alma e no meu peito você descansa. Essas são nossas manhãs.
20 janeiro, 2012
O vento bom
No sonho do pouco sono da última madrugada sonhei que uma linha fina me segurava por cima de um abismo, e eu balançava. Abaixo de mim tudo verde. Um desconforto no meu corpo. Uma casa antiga que no sonho se dizia a casa da infância da minha mãe, mesmo tendo para mim que ela se criou em um apartamento no Jardim Botânico. Foi quando a corda se rompeu e eu voei. Voei e mexia todo meu corpo para que isso acontecesse. E pensava comigo mesma,"quando sou eu a me colocar nas alturas, encontro prazer.Desse modo sim, sem cordas, eu, por mim mesma, a voar". Com as rédeas da minha alma agarradas à minha mão passei por entre folhas e flores roxas e naveguei pelo ar. E foi um sonho com trilha musical. Como me encanta sonhar.
Posso voar.
Posso voar.
28 dezembro, 2011
Passou.
Nostálgica. Bom ou ruim sou assim. Cultivo os cheiros, as sensações, as imagens conectadas com algum sentimento que volta por segundos ou milésimos deles. Não saudosista. As vezes. Mas normalmente só nostálgica. Gosto de brincar com a idéia do tempo que pertence à memória e viajar nele. Quantas vezes não o faço ao ninar Manuela. Me deixo navegar por sensações que habitaram minha alma e viajo de volta, e volto para o agora e me divirto. E só vale se for uma viagem natural, em que a mente traz espontaneamente as imagens, as sensações, e por alguns segundos flutuo, mas sempre retorno.
Com Manuela tenho aprendido a exercitar o agora. O agora. Que tantas vezes em meditação procurei, veio de maneira intensa com a minha filha. Esse agora consiste no que foi antes, nessa viagem que flutua pelo tempo mas consiste em essência ao regresso ao agora. Um agora que nos escapa. Um agora que a faz dar saltos de desenvolvimento da noite para o dia. Um agora que me revela de maneira profunda que ela será uma mulher, e eu serei um dia avó, e um dia partirei, como ela partirá. Manuela me trouxe uma dimensão do tempo que já era sabida mas não era reconhecida. O que antes para mim era uma idéia passou a ser sentimento. E pela primeira vez ao navegar no tempo que me habita procuro reflexões de um ano que se acabou e só encontro a ela. A Manuela. Foi um ano que se mistura com o final do outro ano, quando nasceu minha filha, quando nasci mãe. Quando descobri que irei envelhecer, morrer. Quando parei tudo o que dizia respeito a mim para que eu fosse para ela. Então não me encontro nas memórias do ano que passou. Poderia doer. Mas quando faço um esforço, um esforço delicado, a imagem que me invade é a de estarmos subindo a rua, ela no sling, indo ao parque atrás da minha casa, nos deparando com micos, ela brincando em silêncio na areia, olhando profundamente para outras crianças e na volta nos deparamos com uma revoada de papagaios, os saudamos, agradecemos e partimos para casa. Minha garganta seca e meus olhos ardem. Como foram bons esses dias.
Esse foi meu ano de 2011 e é para isso que irei voltar quando quiser, sentada ao sofá, navegar pelo tempo, voltar ao passado, brincar de deus de mim mesma, sentir saudade. A saudade me invade quando penso em Manuela. E só posso ser profundamente grata a isso, e ao tempo que abri em meu corpo, alma e coração TODO para ela. Não poderia ser de outro jeito. Ela está crescendo, e 2011 e AQUELE passeio ao parque só cabem agora na viagem do meu coração.
Obrigada.
E que venha 2012, o agora de mim mesma, com ela, com Leo, com o mundo e com as escolhas corajosas que meu coração faz.
Com Manuela tenho aprendido a exercitar o agora. O agora. Que tantas vezes em meditação procurei, veio de maneira intensa com a minha filha. Esse agora consiste no que foi antes, nessa viagem que flutua pelo tempo mas consiste em essência ao regresso ao agora. Um agora que nos escapa. Um agora que a faz dar saltos de desenvolvimento da noite para o dia. Um agora que me revela de maneira profunda que ela será uma mulher, e eu serei um dia avó, e um dia partirei, como ela partirá. Manuela me trouxe uma dimensão do tempo que já era sabida mas não era reconhecida. O que antes para mim era uma idéia passou a ser sentimento. E pela primeira vez ao navegar no tempo que me habita procuro reflexões de um ano que se acabou e só encontro a ela. A Manuela. Foi um ano que se mistura com o final do outro ano, quando nasceu minha filha, quando nasci mãe. Quando descobri que irei envelhecer, morrer. Quando parei tudo o que dizia respeito a mim para que eu fosse para ela. Então não me encontro nas memórias do ano que passou. Poderia doer. Mas quando faço um esforço, um esforço delicado, a imagem que me invade é a de estarmos subindo a rua, ela no sling, indo ao parque atrás da minha casa, nos deparando com micos, ela brincando em silêncio na areia, olhando profundamente para outras crianças e na volta nos deparamos com uma revoada de papagaios, os saudamos, agradecemos e partimos para casa. Minha garganta seca e meus olhos ardem. Como foram bons esses dias.
Esse foi meu ano de 2011 e é para isso que irei voltar quando quiser, sentada ao sofá, navegar pelo tempo, voltar ao passado, brincar de deus de mim mesma, sentir saudade. A saudade me invade quando penso em Manuela. E só posso ser profundamente grata a isso, e ao tempo que abri em meu corpo, alma e coração TODO para ela. Não poderia ser de outro jeito. Ela está crescendo, e 2011 e AQUELE passeio ao parque só cabem agora na viagem do meu coração.
Obrigada.
E que venha 2012, o agora de mim mesma, com ela, com Leo, com o mundo e com as escolhas corajosas que meu coração faz.
29 novembro, 2011
Mundo humano
Hoje é uma dia de revolta que me fez lembrar um fato que escrevo agora: Manuela veio lentamente, em casa eu meditava, sorria, me banhava. As 9h resolvemos ir pra maternidade. Eu segurava a mão da minha doula e dizia: estou tão tranquila que tenho até medo. No carro fiquei ajoelhada, sorrindo, sorrindo muito. Chegamos na maternidade, fui atendida pela médica de plantão que com um tom péssimo disse: tira a calcinha e deita ali. Ela me tocou e disse: Você acha que esse nenem vai nascer de parto normal? Hum veremos. Ao que respondi, calma e plena: Ela vai nascer de parto natural, sem cortes, sem intervenções. A mulher grávida, em estado de graça, que deveria ser recebida e cuidada com amor e doçura, era eu. Ainda bem que era eu nesse dia. Eu tinha tanta leitura por detrás da minha decisão, eu tinha tanta meditação na gestação, eu tinha tanta fé em mim, eu confiava de forma absoluta no meu corpo, no meu poder de trazer minha filha e o mais importante: eu somava tudo isso a uma alegria enorme, que, acredite, cada contração me trazia, que essa sujeita foi uma sombra apagada pela luz que me aquecia naquele dia. Ao seu humpf, seu dedo frio, seu olhar pobre, hoje respondo: Manuela nasceu seis horas depois ao nosso triste encontro, eu gritei por ela entre lágrimas, eu senti meu corpo se abrir, ela saiu de mim e veio ao meu peito com o cordão ligado e mamou por uma hora. Ninguém cortou meu perineo, ninguém estorou minha bolsa. Ninguém tirou minha filha dos meus braços pra lhe dar banho, enfeitar e enfiar-lhe uma mamadeira com suplemento. E escrevo cada palavra dessa com o sangue quente e os olhos ardidos, porque diariamente médicos e medicas (!) agendam cesárias para serem práticos, aterrorizam as mulheres com relação ao seu real poder, cortam cordões precoces, e simplesmente estragam uma amamentação. Privam mães e filhos do olho no olho, do toque, do cheiro, da transmissão dos nutrientes tão importantes para o nenem, não permitem que a mãe alimente sua cria de algo que faz parte dela e foi feito pra ele. E as mães, essas mulheres resultado da queima de sutiãs de outrora, essas mães, mulheres cultas e informadas, têm medo de si, e de tantos nomes fortes como hipoglicemia, etc,etc. Essas mães ouvem do médico que seu leite só não é suficiente, ou que seu nenem é muito grande pra sair, ou simplesmente essas mães optam por uma cirurgia por medos que ela nem sabe nomear e as vezes nem querem chamar de medo, mas de opção. Deixa que eles fazem....
Violência contra a mulher não é só aquela do marido bebado que bate na cara. Hoje eu tomei uma porrada ao conversar com uma amiga, porque cada mulher que cai na teia do medo e da violência velada é um soco no meu ventre de mulher parideira, de mãe dedicada e informada, é um grito que sufoca a garganta e aperta o peito. É uma vontade de subir num palanque e berrar: Ser Humano vamos cuidar de nossas mães e vamos cuidar de nós! Não queremos mais homens que foram bebês de mamadeira e luz artificial, regados com lágrimas de uma mãe que transborda leite e não sabe como derramá-lo sobre o corpo e a alma de seu rebento.
Quanta vergonha sinto de nós.
Violência contra a mulher não é só aquela do marido bebado que bate na cara. Hoje eu tomei uma porrada ao conversar com uma amiga, porque cada mulher que cai na teia do medo e da violência velada é um soco no meu ventre de mulher parideira, de mãe dedicada e informada, é um grito que sufoca a garganta e aperta o peito. É uma vontade de subir num palanque e berrar: Ser Humano vamos cuidar de nossas mães e vamos cuidar de nós! Não queremos mais homens que foram bebês de mamadeira e luz artificial, regados com lágrimas de uma mãe que transborda leite e não sabe como derramá-lo sobre o corpo e a alma de seu rebento.
Quanta vergonha sinto de nós.
10 novembro, 2011
Desabafo.
Após muitas, muitas mesmo, experiências diárias com pessoas desconhecidas, conhecidas ou mais ou menos passei a querer por um sinal no pescoço: Sim! A minha filha mama "ainda". Sim, ela tem um ano e 2 meses. Sim! Ela puxa meu seio as vezes porque tem sede, as vezes porque tem sono e as vezes nem o suga, mas deposita seus lábios ali, sentindo meu calor, e você não precisa dizer: mas ela nem está mamando. Porque está sim, ainda que não seja a fome de leite, ainda que todos seus conceitos perturbem sua mente, ainda que você me diga que não deveria fazer meu peito de chupeta, ainda mais para uma menina de mais de um ano, que anda, se posiciona dizendo sim e não pras coisas, devora um prato de arroz integral e feijão e um pote de morango picadinho com banana. Mas vou te dizer, a gente se alinha, se mistura e desde a barriga que Manuela insiste em não seguir o tempo marcado pelo tic tac do relógio apressado dos homens desse planeta, não veio com 39 semanas, nem com 40 e quase que nem com 41. Nasceu quando quis. Não andou antes de um ano, nunca colocou uma chupeta na boca nem mamadeira e essas são as nossas escolhas. Mas ainda assim não paro uma mãe na praça ao ver seu filho tomar sei lá o quê de cor estranha em uma enorme mamadeira. Porque é assim que eles se alinham e se entendem. E é no meu seio, no meu colo, e cada vez mais nesse mundão de meu deus que ela insiste em desbravar, que eu e Manuela afinamos nossa melodia. Sem manhas, pirraças e chiliques. Doce, calmo, respeitoso. E quanto aos meus tropeços...ahhhh...acho que com tanto amor no peito todos, eu e a pequena sábia Manuela, irão me perdoar. Portanto, sim, ela ainda mama. E não acho que é "ainda". Nem acharei "já" quando ela, cada vez mais, minha mão, meu seio e meu colo soltar.
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