Eu bem sei que aí não tem computadores, internet. Como sei que mesmo quando tudo era terreno para você não lhe era costumeiro checar emails e frequentar blogs. Mas minha alma hoje borbulhou dentro de mim e eu precisava lhe escrever. Escrevo para mim mesma, para os que me leem, mas o desabafo conforta e a doce ilusão de que com o senhor converso agora acalma a saudade, abranda as lágrimas.
Eu e Paula conversávamos. Ela fará Pedagogia, na Uni Rio, segue grávida de Francisco. O Chiquinho que você chamava na minha barriga veio na dela. Eu estou cercada de livros. Esse ano começo a lecionar português a crianças de onze anos.
Sim. Duas de nós. Educadoras. Eu me sinto tão entusiasmada que, ao ler os livros, ao deparar me com pensamentos e orientações para a formação de leitores, escritores, cidadãos críticos, pessoas de opinião, transformadores sociais, preciso pausar a leitura para conter o entusiasmo. Entusiasmo desse fazer tão belo, artesanal e profundo. E disse a Paula que queria poder lhe contar e dividir com você minha alegria, expectativa e desafio. E ela disse que você sabia. E que era vivo em nós.
Lembrei me então do dia em que me contou que o dia mais feliz da sua vida foi quando entrou na sua escola, escola que você fundou com suor e amor. E que ao olhar para o pátio sentiu uma alegria tranquila, dessas que se dão pela certeza de estar no lugar certo.
Das suas conversas com Manuel Bandeira, da sua amizade com Manoel de Barros e Helio Oiticica. Da alfabetização para adultos humildes que você realizou até os mais de noventa anos de idade. Do dia que, sentado à cadeira de sua casa, me confessou: ensinar a ler e escrever é só o começo, o que faço nessas aulas é dar noções de cidadania a esses trabalhadores, que tem as mãos calejadas, porque quando crianças ganharam uma enxada ao invés de lápis e caderno.
O que seria então ser um professor? O senhor tinha a alma de um. E deixou "farelinhos" dessa estrela, que a vida se encarrega aos poucos de mostrar. Nunca imaginei que seria professora de português e no entanto me vejo como o senhor, orientadora e parceira de seres humanos.
A Paula disse que você é vivo. Em mim. Nela. Na Manuela. Que basta olhar, e dá até para tocar.
Disse que agora vai abrir com ela uma escola. Posso ver os passos dela pisando no pátio, segurando Francisco pela mão, olhando ao redor e sentindo o seu cheiro, para que ali prossiga seu legado.
E eu morro de saudades. De sua voz rouca a me dizer; então vá ler Julietinha porque ensinar Português é coisa séria.
E eu morro de gratidão. Gratidão eterna, por ser sua neta vô.
09 janeiro, 2013
04 dezembro, 2012
Lado de cá
O som era da vassoura. Ela varria e me dizia. Eu também desabafava. Meus olhos se enchiam, com a voz engasgada, com minha filha nos braços, lhe contava: ela levou um tiro no peito, dentro da própria casa. De graça. E a vassoura mudava a cadência ao ouvir me. Suas mãos calejadas então paravam. Seus olhos brilhantes e negros se espantavam e sua forte voz replicava com doçura: O reconheci pela televisão, quando preparava o almoço larguei meus afazeres, e fui ver se de fato era ele. O conheci pequeno. Era descalço. Drogado. Sentava-se abandonado por cima dos carros segurando uma arma. Eu ia para a igreja e dizia; olha só aquele menino ali, que fim terá?
E então secou as lágrimas. A vassoura voltou a varrer. Eu fui ninar minha filha. Nenhum perdão ocorreu. Só dor dos dois lados.
E então secou as lágrimas. A vassoura voltou a varrer. Eu fui ninar minha filha. Nenhum perdão ocorreu. Só dor dos dois lados.
02 outubro, 2012
Que sei eu
Nomes. Um dia
recortamos tudo. Demos nomes. Inventamos palavras. Reduzimos o
sentido ao som da junção de letras. E então fazemos assim com tudo
na vida. Profissão. Paixão. Realização. Nome. Nome. Nome. Damos
tanto nomes para o que há fora de nós que o que não se chama
também não se ouve.
Hoje quando me
perguntam minha profissão tenho que pensar muito. Sou professora de
teatro. Me formei em jornalismo. Escrevo sempre que dá, um coisa
aqui e outra acolá, pouca ficção, muita reflexão, desabafo, as
vezes poesia. Arranco algumas lágrimas dos leitores com palavras
doces e sentidas, sei colocar no papel um bucado de coisa e sou uma
contradição porque as vezes não acredito nas palavras mas me
delicio com elas. Como não acreditar? Manoel de Barros é meu santo
salvador e me salva por palavras. Deve ser porque ele não reduz
sentimentos pelo som de letras. Ele os amplia, os mastiga, os colore.
Então a palavra deixa de ser um recorte e vira arte. E se vira arte
é extensão da vida, é transfiguração; mas me falta ousadia de me
dar o nome de escritora. Sou mãe. Muito mãe. De amamentar até os
dois anos, de mudar de cidade para dar uma casa mais confortável. De
não cogitar, e preste bem atenção ao som dessa palavra COGITAR
sacrificar nossa relação por coisas que, para mim, são menores. E
olha que para ser menor que meu amor por ela não precisa lá ser
algo tão pequeno. Sou dona de casa. Decoradora. Ultimamente me
descobri habilidosa com as mãos. Faço borboletas de papel para
varanda, prego com cola flores secas na parede e perco o sono
elaborando presentes doces criativos para pessoas que amo. Sou
cozinheira. Pesquiso sabores diferentes, compro orgânicos,
integrais, não industrializados, não como carne, faço eu mesma o
leite de coco. Que nome seria isso? Seria isso também uma profissão?
Fiz 5 anos de escola de teatro, três no Brasil, dois em Londres. Me
transformei. Saí da Inglaterra ouvindo: você precisa ser vista. Dei
com a testa na porta, chorei. Só.Falei uma frase em um
longa, uma peça pequena em Londres. Muito treino. Muito ensaio. Só.
Seria atriz?
Que nome que a gente
tem? E só de escrever quantos nomes carrego tirei o peso de me
definir. Não tenho nome. Manuela me chama de mamãe juju, meu marido
de amor, minha mãe de Julieta. Eu me chamo de não sei.
30 julho, 2012
Para Henry
Os pés pisam no chão ainda frio. Eles desconhecem esse novo caminho. Com sua partida ficou a saudade do velho. Saudade do que era minha alma. Minha alma agora, mais uma vez, é outra. Não é mais aquela que existia à manhã de quarta feira. Voltar para minha vida antiga, a Belo Horizonte, não significa mais voltar ao que era. Ainda que eu cozinhe com os mesmos temperos, debaixo do mesmo teto, carregue Manuela para o mesmo parque pelo mesmo caminho. Converse ao telefone com minha mãe nos mesmos horários de sempre. Jamais será a vida anterior a quarta. O que nos faz é a vida e quem por ela cruza. Eu não me fiz católica. E conversávamos muito sobre Cristo. Eu lhe dizia que me doía aquela imagem de Cristo em pedaços de sangue, em sofrimento em uma cruz, mas o senhor dizia-me que aquilo representava renascimento. Renascimento. Tudo na vida é o modo que se vê. E que se sente. Quantas vezes imaginei o dia em que partiria. 97 anos ora pois, pensei nisso muitas vezes. A gente tem essa mania estranha de pensar em algo que ainda não existe. Eu sabia que você partiria na quarta, mas não disse a ninguém e quando quis dizer a mim, neguei solenemente. Suas cores vibram nas paredes da minha casa, sua última assinatura do seu último quadro, feito em parceria, ganhou beijo doce e espontâneo de sua bisneta. Eu beijei sua cama. Não pude colocar a mão em sua fronte fria como o fez seu guerreiro e amado filho Paulo. Mas eu lhe olhei. Olhei profundamente. E por ora via aquelas flores se mexerem como se respirasse aquele corpo que tanto viveu. Certa vez escrevi sobre uma cidade redonda onde sempre voltamos a onde começamos. Concordo. Mas os pés pisam diferente. E a alma carrega mais saudades. Novos sonhos. Por você carrego gratidão. Lembro me de quando cumpri o sonho de morar perto de ti, e até mingau lhe fiz. Era uma forma de eu lhe dizer muito obrigada. Obrigada por me ensinar que na cruz cheia de sangue há renascimento, que em um desaforo sincero reside um amor profundo e um desejo intenso de que o mundo seja um lugar melhor. De que viver 97 anos e querer partir e partir porque quer é privilégio de almas solenes. Antes mesmo de sua partida me lembrava todas as noites de sua voz rouca a contar me histórias pra dormir, quando faço o mesmo para minha filha. Não as mesmas. Mas histórias. E regadas de amor. E essa noite em um sono meio acordada falava comigo mesma a despedida e me despedia de cada parte do seu corpo. Sonambula dizia adeus aos seus pés, à suas mãos, dizia adeus a cada parte de ti, e acordei bem. Minha alma não é mais a mesma e como eu poderia lhe pedir: não não vá! Não havia como isso lhe pedir, que pra viver precisa se morrer. E junto ás estrelas se juntar. E não sei dizer o que se torna quando se vai. Mas o que fica de ti...esse fica comigo até eu partir.
03 julho, 2012
Efêmero
Você tirou suas fraldas. Assim, com um ano e 9 meses as arrancou e decretou seu fim. Para isso não fiz nenhum processo nem treinamento, nem tão pouco esperava. Me disseram que seria a partir dos dois. E como todas as belezas da vida acontecem sem data previamente marcada você decidiu que não as queria agora. Usa calcinhas, pouco as molha, já sabe fazer a forcinha pro xixi sair, ainda não pede, mas tudo indica que em breve, muito em breve, o verbo e o desejo saltarão a boca. E foi doce e sútil. O peito ainda não solta. Agarra, coloca a boca e se distrai por ali. Eu fico exausta. Reclamo. Essa noite por duas horas seguidas sugou deitada por cima da minha barriga. Já elabora frases enormes, raciocínios incríveis, entendimentos completos e as vezes, porque não dizer, precoces. Precoces para regras gerais, mas não pra você. Você que esperou 41 semanas, dois dias e 12 horas de trabalho de parto pra nascer. Não para você que é respeitada no seu tempo. E tanto me ensina. A morte sempre ronda a vida. E nos passa de raspão. Uma mulher um dia se jogou bem perto de mim. Semana seguinte passamos 20 minutos antes em um local que foi palco de uma tragédia de trânsito. Hoje soubemos que o filho da sua médica tirou a própria vida. E você a viver a sua no seu tempo. E eu, entre olheiras e cansaço, vejo uma menina que quer muito meu seio, que dormiu a noite toda agarrada a mim. Então respiro. Te vejo enorme, perfeita e saudável. Deitada na minha cama com calcinha de algodão branco a choramingar meu peito. E lhe dou. E nos agarramos. E eu lhe toco. Sua pele branca, macia. Seus cabelos claros, seus cílios longos, sua boca perfeita e rosada. E agradeço a sua existência. E celebro o encontro das nossas almas que um dia decidiram se fazer carne para viverem juntas por essa passagem pela Terra. E eternizo esse momento. Porque a vida tem me revelado, ao acaso, a morte. E você me revela a vida. Me revela a mim. E me mostra o tempo. E sei que do mesmo modo que arrancou as fraldas um dia vai dizer adeus ao meu seio. Vai abrir a porta de casa e ganhar o mundo. Eu vou envelhecer. Você também. E essa tarde de hoje, você agarrada ao seio aos quase dois anos de idade, esse momento estará somente gravado na alma. Você meu amor não faz nada que não seja ao seu tempo. E eu não quero correr. Mame. Mame muito, o quanto for do seu desejo. Não tenho dúvidas de que seguir o tempo e respeitá-lo é o melhor caminho para se viver. Seu corpo é parte do meu corpo. E você é mais linda revelação da vida, da unicidade e do passageiro. Eterno é somente meu amor desmedido por você.
23 fevereiro, 2012
Todo dia
Amanhece. Saudamos o sol e entre tropeços espremo as laranjas, coloco-lhe chapéu, calça e camiseta. No carrinho vamos quicando pelas calçadas emburacadas, desviando dos degraus, ouvindo bem-te-vis ao longe. Você pequenina segura com as duas mãos no carrinho e procura no chão cocô de cachorro, pegada de passarinho, água que desce pela rua. E para tudo quer mais. Chegamos ao parque e saudamos borboletas que, também vem nos saudar, voam perto do nosso rosto, e você pisca alegre, gargalha. Dizemos oi para as flores, você as quer cheirar, se coloca bem perto delas, e com uma caretinha deliciosa funga seu cheiro por muito tempo, o quanto eu ali lhe deixar. As acaricia. As respeita. Então lhe conto que uma abelha virá buscar o pozinho para fazer mel, aquele mesmo que as frutinhas não muito maduras para você irá adoçar. Então descemos para areia e suas mãos se abrem inteiras na umidez profunda das pedras e terra fina, junta montinhos, espalha outros tantos e pede que lhe tire os sapatos, esparrama seus pés, pronuncia o nome das coisas, pé, chão, bom. Vê uma formiga e se joga de cara no chão com milhões de beijinhos estalados e carinhosos. Aprendemos juntas a saudar o dia e celebrar com amor todas as coisas. Na volta passarinho voa pertinho, cachorro vem cheirar. Em casa o banho lava a terra, refresca a alma e no meu peito você descansa. Essas são nossas manhãs.
20 janeiro, 2012
O vento bom
No sonho do pouco sono da última madrugada sonhei que uma linha fina me segurava por cima de um abismo, e eu balançava. Abaixo de mim tudo verde. Um desconforto no meu corpo. Uma casa antiga que no sonho se dizia a casa da infância da minha mãe, mesmo tendo para mim que ela se criou em um apartamento no Jardim Botânico. Foi quando a corda se rompeu e eu voei. Voei e mexia todo meu corpo para que isso acontecesse. E pensava comigo mesma,"quando sou eu a me colocar nas alturas, encontro prazer.Desse modo sim, sem cordas, eu, por mim mesma, a voar". Com as rédeas da minha alma agarradas à minha mão passei por entre folhas e flores roxas e naveguei pelo ar. E foi um sonho com trilha musical. Como me encanta sonhar.
Posso voar.
Posso voar.
28 dezembro, 2011
Passou.
Nostálgica. Bom ou ruim sou assim. Cultivo os cheiros, as sensações, as imagens conectadas com algum sentimento que volta por segundos ou milésimos deles. Não saudosista. As vezes. Mas normalmente só nostálgica. Gosto de brincar com a idéia do tempo que pertence à memória e viajar nele. Quantas vezes não o faço ao ninar Manuela. Me deixo navegar por sensações que habitaram minha alma e viajo de volta, e volto para o agora e me divirto. E só vale se for uma viagem natural, em que a mente traz espontaneamente as imagens, as sensações, e por alguns segundos flutuo, mas sempre retorno.
Com Manuela tenho aprendido a exercitar o agora. O agora. Que tantas vezes em meditação procurei, veio de maneira intensa com a minha filha. Esse agora consiste no que foi antes, nessa viagem que flutua pelo tempo mas consiste em essência ao regresso ao agora. Um agora que nos escapa. Um agora que a faz dar saltos de desenvolvimento da noite para o dia. Um agora que me revela de maneira profunda que ela será uma mulher, e eu serei um dia avó, e um dia partirei, como ela partirá. Manuela me trouxe uma dimensão do tempo que já era sabida mas não era reconhecida. O que antes para mim era uma idéia passou a ser sentimento. E pela primeira vez ao navegar no tempo que me habita procuro reflexões de um ano que se acabou e só encontro a ela. A Manuela. Foi um ano que se mistura com o final do outro ano, quando nasceu minha filha, quando nasci mãe. Quando descobri que irei envelhecer, morrer. Quando parei tudo o que dizia respeito a mim para que eu fosse para ela. Então não me encontro nas memórias do ano que passou. Poderia doer. Mas quando faço um esforço, um esforço delicado, a imagem que me invade é a de estarmos subindo a rua, ela no sling, indo ao parque atrás da minha casa, nos deparando com micos, ela brincando em silêncio na areia, olhando profundamente para outras crianças e na volta nos deparamos com uma revoada de papagaios, os saudamos, agradecemos e partimos para casa. Minha garganta seca e meus olhos ardem. Como foram bons esses dias.
Esse foi meu ano de 2011 e é para isso que irei voltar quando quiser, sentada ao sofá, navegar pelo tempo, voltar ao passado, brincar de deus de mim mesma, sentir saudade. A saudade me invade quando penso em Manuela. E só posso ser profundamente grata a isso, e ao tempo que abri em meu corpo, alma e coração TODO para ela. Não poderia ser de outro jeito. Ela está crescendo, e 2011 e AQUELE passeio ao parque só cabem agora na viagem do meu coração.
Obrigada.
E que venha 2012, o agora de mim mesma, com ela, com Leo, com o mundo e com as escolhas corajosas que meu coração faz.
Com Manuela tenho aprendido a exercitar o agora. O agora. Que tantas vezes em meditação procurei, veio de maneira intensa com a minha filha. Esse agora consiste no que foi antes, nessa viagem que flutua pelo tempo mas consiste em essência ao regresso ao agora. Um agora que nos escapa. Um agora que a faz dar saltos de desenvolvimento da noite para o dia. Um agora que me revela de maneira profunda que ela será uma mulher, e eu serei um dia avó, e um dia partirei, como ela partirá. Manuela me trouxe uma dimensão do tempo que já era sabida mas não era reconhecida. O que antes para mim era uma idéia passou a ser sentimento. E pela primeira vez ao navegar no tempo que me habita procuro reflexões de um ano que se acabou e só encontro a ela. A Manuela. Foi um ano que se mistura com o final do outro ano, quando nasceu minha filha, quando nasci mãe. Quando descobri que irei envelhecer, morrer. Quando parei tudo o que dizia respeito a mim para que eu fosse para ela. Então não me encontro nas memórias do ano que passou. Poderia doer. Mas quando faço um esforço, um esforço delicado, a imagem que me invade é a de estarmos subindo a rua, ela no sling, indo ao parque atrás da minha casa, nos deparando com micos, ela brincando em silêncio na areia, olhando profundamente para outras crianças e na volta nos deparamos com uma revoada de papagaios, os saudamos, agradecemos e partimos para casa. Minha garganta seca e meus olhos ardem. Como foram bons esses dias.
Esse foi meu ano de 2011 e é para isso que irei voltar quando quiser, sentada ao sofá, navegar pelo tempo, voltar ao passado, brincar de deus de mim mesma, sentir saudade. A saudade me invade quando penso em Manuela. E só posso ser profundamente grata a isso, e ao tempo que abri em meu corpo, alma e coração TODO para ela. Não poderia ser de outro jeito. Ela está crescendo, e 2011 e AQUELE passeio ao parque só cabem agora na viagem do meu coração.
Obrigada.
E que venha 2012, o agora de mim mesma, com ela, com Leo, com o mundo e com as escolhas corajosas que meu coração faz.
29 novembro, 2011
Mundo humano
Hoje é uma dia de revolta que me fez lembrar um fato que escrevo agora: Manuela veio lentamente, em casa eu meditava, sorria, me banhava. As 9h resolvemos ir pra maternidade. Eu segurava a mão da minha doula e dizia: estou tão tranquila que tenho até medo. No carro fiquei ajoelhada, sorrindo, sorrindo muito. Chegamos na maternidade, fui atendida pela médica de plantão que com um tom péssimo disse: tira a calcinha e deita ali. Ela me tocou e disse: Você acha que esse nenem vai nascer de parto normal? Hum veremos. Ao que respondi, calma e plena: Ela vai nascer de parto natural, sem cortes, sem intervenções. A mulher grávida, em estado de graça, que deveria ser recebida e cuidada com amor e doçura, era eu. Ainda bem que era eu nesse dia. Eu tinha tanta leitura por detrás da minha decisão, eu tinha tanta meditação na gestação, eu tinha tanta fé em mim, eu confiava de forma absoluta no meu corpo, no meu poder de trazer minha filha e o mais importante: eu somava tudo isso a uma alegria enorme, que, acredite, cada contração me trazia, que essa sujeita foi uma sombra apagada pela luz que me aquecia naquele dia. Ao seu humpf, seu dedo frio, seu olhar pobre, hoje respondo: Manuela nasceu seis horas depois ao nosso triste encontro, eu gritei por ela entre lágrimas, eu senti meu corpo se abrir, ela saiu de mim e veio ao meu peito com o cordão ligado e mamou por uma hora. Ninguém cortou meu perineo, ninguém estorou minha bolsa. Ninguém tirou minha filha dos meus braços pra lhe dar banho, enfeitar e enfiar-lhe uma mamadeira com suplemento. E escrevo cada palavra dessa com o sangue quente e os olhos ardidos, porque diariamente médicos e medicas (!) agendam cesárias para serem práticos, aterrorizam as mulheres com relação ao seu real poder, cortam cordões precoces, e simplesmente estragam uma amamentação. Privam mães e filhos do olho no olho, do toque, do cheiro, da transmissão dos nutrientes tão importantes para o nenem, não permitem que a mãe alimente sua cria de algo que faz parte dela e foi feito pra ele. E as mães, essas mulheres resultado da queima de sutiãs de outrora, essas mães, mulheres cultas e informadas, têm medo de si, e de tantos nomes fortes como hipoglicemia, etc,etc. Essas mães ouvem do médico que seu leite só não é suficiente, ou que seu nenem é muito grande pra sair, ou simplesmente essas mães optam por uma cirurgia por medos que ela nem sabe nomear e as vezes nem querem chamar de medo, mas de opção. Deixa que eles fazem....
Violência contra a mulher não é só aquela do marido bebado que bate na cara. Hoje eu tomei uma porrada ao conversar com uma amiga, porque cada mulher que cai na teia do medo e da violência velada é um soco no meu ventre de mulher parideira, de mãe dedicada e informada, é um grito que sufoca a garganta e aperta o peito. É uma vontade de subir num palanque e berrar: Ser Humano vamos cuidar de nossas mães e vamos cuidar de nós! Não queremos mais homens que foram bebês de mamadeira e luz artificial, regados com lágrimas de uma mãe que transborda leite e não sabe como derramá-lo sobre o corpo e a alma de seu rebento.
Quanta vergonha sinto de nós.
Violência contra a mulher não é só aquela do marido bebado que bate na cara. Hoje eu tomei uma porrada ao conversar com uma amiga, porque cada mulher que cai na teia do medo e da violência velada é um soco no meu ventre de mulher parideira, de mãe dedicada e informada, é um grito que sufoca a garganta e aperta o peito. É uma vontade de subir num palanque e berrar: Ser Humano vamos cuidar de nossas mães e vamos cuidar de nós! Não queremos mais homens que foram bebês de mamadeira e luz artificial, regados com lágrimas de uma mãe que transborda leite e não sabe como derramá-lo sobre o corpo e a alma de seu rebento.
Quanta vergonha sinto de nós.
10 novembro, 2011
Desabafo.
Após muitas, muitas mesmo, experiências diárias com pessoas desconhecidas, conhecidas ou mais ou menos passei a querer por um sinal no pescoço: Sim! A minha filha mama "ainda". Sim, ela tem um ano e 2 meses. Sim! Ela puxa meu seio as vezes porque tem sede, as vezes porque tem sono e as vezes nem o suga, mas deposita seus lábios ali, sentindo meu calor, e você não precisa dizer: mas ela nem está mamando. Porque está sim, ainda que não seja a fome de leite, ainda que todos seus conceitos perturbem sua mente, ainda que você me diga que não deveria fazer meu peito de chupeta, ainda mais para uma menina de mais de um ano, que anda, se posiciona dizendo sim e não pras coisas, devora um prato de arroz integral e feijão e um pote de morango picadinho com banana. Mas vou te dizer, a gente se alinha, se mistura e desde a barriga que Manuela insiste em não seguir o tempo marcado pelo tic tac do relógio apressado dos homens desse planeta, não veio com 39 semanas, nem com 40 e quase que nem com 41. Nasceu quando quis. Não andou antes de um ano, nunca colocou uma chupeta na boca nem mamadeira e essas são as nossas escolhas. Mas ainda assim não paro uma mãe na praça ao ver seu filho tomar sei lá o quê de cor estranha em uma enorme mamadeira. Porque é assim que eles se alinham e se entendem. E é no meu seio, no meu colo, e cada vez mais nesse mundão de meu deus que ela insiste em desbravar, que eu e Manuela afinamos nossa melodia. Sem manhas, pirraças e chiliques. Doce, calmo, respeitoso. E quanto aos meus tropeços...ahhhh...acho que com tanto amor no peito todos, eu e a pequena sábia Manuela, irão me perdoar. Portanto, sim, ela ainda mama. E não acho que é "ainda". Nem acharei "já" quando ela, cada vez mais, minha mão, meu seio e meu colo soltar.
13 setembro, 2011
Melhores amigas
Hoje pela primeira vez ganhei um beijo longo, demorado, doce e cheio de amor de Manuela. Há muito que ela aprendeu a mandar beijinhos, mas ainda não sabia colocar os lábios a bochecha para dar beijos. Começou ensaiando com os bichinhos de pelúcia, depois com os livrinhos e então...smaaaaackkkk me lascou um beijo essa manhã! Que delícia meu deus. Como é mágico ver que seu semblante de menina sabida é de menina sabida e não de nenem sabido, e que nossa relação está se transformando. Agora ela entende as coisas, olha com aquele mesmo olhar esperto dela, mas já responde com pequenas palavras já sabe fazer não com a cabeça e anda praticando bastante o sim (ainda bem); até me socorreu hoje quando, sem empregada, me vi cercada de louça suja, com seu prato cheio de comida e ela aos gritos pedindo peito, dei um suspiro gritado de desespero. Ao ver minha dor resolveu voltar atrás com relação ao almoço que havia deixado no prato, me agarrou pelos ombros rindo, rindo (como quem diz: ri também mamãe!) e puxava meus ombros veementemente para irmos pra cozinha, quando perguntei: você quer papar? E ela: quéeee! E comeu tudo. Vê como pode, ganhar um beijo estalado e consolo pro cansaço e desorientação; minha amiga, meu amor. Minha linda flor. Crescendo. Brotando. Virando para o sol.
26 julho, 2011
18 julho, 2011
Conforto
Essa postagem é um desabafo alegre. Outro dia encontrei com uma amiga querida grávida que me disse ter ficado incomodada com uma menina que grudou a mão em sua barriga e ela nada fez. Então eu lhe disse: Pois vai se acostumando a pedir licença com doçura porque o que mais fazemos é pedir licença com doçura quando os pequenos nascem. Pedimos licença para assumirmos a maternidade ao nosso modo, com nosso coração e espírito. Eu assumi a minha assim. Rigorosa com os horários da Manuela, estabelecendo rotina, limitando e dosando os estímulos, cuidando que seus primeiros seis meses de vida fossem calmos, seguros, cheios de amor.Isso resultou em uma mocinha doce e calma, serena, e não sou eu quem acho que isso foi o resultado da sua rotininha não, é científico, e sua médica confirma. Não dou carne, que tem agrotóxico,antibiótico, hormonio, adrenalina e mais um monte de coisa que a gente nem sabe o que significa. E por essa mesma razão dou muito legume e verdura orgânicos. Aprendi o que são as vacinas, de que são feitas, como são feitas (você sabe isso?), e o que aquela coiseira toda (aluminio e mais muuuita coisa!) pode dar de efeito colateral- além da febrinha e dor muscular que tanto parte nosso coração mas não é nem a "missa metade". Cada doença que essas vacinas cobrem, sua forma de contágio, se estão ou não erradicadas. Descobri que febre pode ser muito bom! E algumas doenças infantis não são monstros não! As infantis! Que fique claro! Já saí no meio de jantar, no começo da festa, e muitas vezes nem fui, tudo porque ela tinha horário (e ainda tem!), sono, fome. Dei peito livre demanda e exclusivo por seis meses, dou peito até hoje, mesmo ela comendo comidinhas. Nossa quanto tempo não durmo uma noite inteira, não vou ao cinema, ao teatro, etc, etc. Mas sem sofrimento, com prazer, o tempo não volta atrás e um dia ela será do mundo e eu terei tantas e tantas horas pra tudo isso. Tive que ouvir muito pitaco, lidar com o julgamento dos outros (muitas vezes de gente que nem filho tem!), apertar o botão do F e seguir em frente com o meu coração, que não é um só, mas ritimado com o do meu marido, amigo, amor e pai da Manuela. E cheguei aqui. Aos 10 meses de Manuela. Nós duas bordando com amor e cuidado cada passo desse camminhar, opa! Nós 3. Hoje ao sair da sua pediatra (antroposófica, pois também quisemos isso, uma médica que não a visse como mais uma nenem, mas como a Manuela) ouvi dela: Meus parabéns! E foi bom ouvir. A recompensa disso tudo é diária, constante, estão nos olhos da pequena, mas um parabéns foi para mim mais um conforto e força. Em meio ao cansaço ver que ela se desenvolve linda e saudável é maravilhoso. E sigamos! Essa é minha história, um pouco dela, apenas um pedaço bem resumido, linda como tantas outras de tantas mães. Mas essa é a minha, e aqui está, divida com o mundo. E a sua?
Com amor...
Com amor...
02 julho, 2011
9 meses
E lá se foram nove meses. Não mais aqueles internos, que cresce a barriga, de altos e baixos, de silêncio e um mistério cercado de tantos sentimentos. Agora lá se foram nove meses daqui de fora. De dedinhos que se abriam e fechavam sentindo o novo ar sem água minha Nunuzinha passou a esticar o corpo todo. Vai aonde quer com seu engatinhar ágil e se segura em qualquer coisa pra ficar em pé. De olhos abertos e atentos criou piscadinhas charmosas. De uma boquinha desenhadinha e rosada descobriu como mandar beijinhos, e bater palminhas, e cantarolar em seu dialeto suas musiquinhas. Do chorinho manhoso que pedia peito descobriu o som de mamãeeee, papaiii, ba pra bola, pé pra pé e acho que nãnã pra vovó. Do choro à atitude que arranca minha blusa em qualquer lugar e se joga de boca a mamar. Do aleitamento exclusivo de 6 meses para o mundo mágico dos cereais, frutas, legumes e verduras. Sucos, quinoa, aveia, arroz integral, trigo, milho, cenoura, abobora, brocolis...hummm quantos sabores! Outro dia seus dedinhos sentiam apenas o ar, que já era uma tremenda novidade e agora se deleita com novas texturas, que sente com as mãos, com a boca, com o nariz.
Nove meses se encerram. E eu, a mãe. Ah....eu jamais seria a mesma após esses 18 meses. Passei a querer fazer curso de fitoterapia, leio sobre comida, vacina, doenças, música, livros pra criança. Penso em saúde, em alegria, em peito. Em ser uma pessoa melhor. Pouco me importa um teste, me preocupa se acabou a laranja pro suco da pequena.
Outro dia Manuela dançava com as mãos para sentir o ar em silencio, agora já se mexe com o corpo todo sob qualquer ruído.
E eu? Eu já não sou mais eu, ou não sou aquele eu...sou algo mais, alguém a mais.
Nove meses se encerram. E eu, a mãe. Ah....eu jamais seria a mesma após esses 18 meses. Passei a querer fazer curso de fitoterapia, leio sobre comida, vacina, doenças, música, livros pra criança. Penso em saúde, em alegria, em peito. Em ser uma pessoa melhor. Pouco me importa um teste, me preocupa se acabou a laranja pro suco da pequena.
Outro dia Manuela dançava com as mãos para sentir o ar em silencio, agora já se mexe com o corpo todo sob qualquer ruído.
E eu? Eu já não sou mais eu, ou não sou aquele eu...sou algo mais, alguém a mais.
06 junho, 2011
Adeus.
O que será esse caminho tortuoso do universo que nos arma tantos encontros? Me presenteia com encontros de luz e alegria como o que tive com meu marido, com minhas amigas de infância, o que presenciei ao olhar dentro dos olhos da minha filha, os que tive em Londres. E em cada pedacinho desse caminho, e em cada pequeno ou grande encontro desses eu me faço. E a vida é breve. E ela vai acabar. E a gente não acredita. E hoje celebro o encontro que tive e tinha todos os dias ao ir pra escola durante meu primeiro ano de Inglaterra. Uma inglesa-indiana-africana que me ensinava inglês, me acalmava nas aulas de acrobacia, dava me aulas de solidariedade e generosidade no dia a dia e me disse algo que nunca mais esqueci: "quando como algo penso em cada um que participou da feitura desse prato, desde a plantação dos vegetais, e lhes agradeço por me possibilitarem o que comer". Didge meu amor, as sementes que você plantou em mim germinam a cada dia, dão flores, e me ensinam sobre gratidão; não agradeço só aos que me deram este prato de comida, mas a cada um que cruzou meu caminho e me alimentou de beleza e sabedoria, e me fez maior. Você foi uma guerreira, lutou contra esse cancêr por 3 anos quando lhe davam apenas 6 meses de vida. Você agora descansa. Mas te carrego na minha alma. E te agradeço. Que a imensidão do universo te acolha e que você flutue sobre nós, em silêncio e em paz. Obrigada por ter feito parte de mim e do meu caminho. E obrigada por ser o que é.
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